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A MEMÓRIA ESTÁ NAS RUAS DE PICOS, MAS ATÉ QUANDO?

Patrimônio de Picos se apaga entre os avanços urbanos, deixando lacunas na memória e identidade da cidade.


Por Maria Clara Leal e Vanessa Cristina Ferreira, alunas do 3° período de jornalismo pela UESPI, Picos



Foto 1: Museu Ozildo Albano - 1960. Reprodução: instagram @picosdasantiga /

Foto 2: Vanessa Cristina - 2024


Picos, situada no coração do semiárido piauiense, é muito mais do que um polo econômico no estado. A cidade carrega uma história rica, refletida em suas construções que, mesmo marcadas pelo desgaste do tempo e pela falta de cuidado, guardam fragmentos preciosos da cultura e da memória local. Conhecida como a “Capital do Mel”, Picos traz em sua trajetória um legado de comércio e urbanização que prosperou entre os séculos XIX e XX. Contudo, esse patrimônio, que poderia ser um importante atrativo cultural, turístico e identitário, está se perdendo diante de nossos olhos.


As antigas casas, igrejas e pequenos prédios comerciais formavam o tecido urbano da cidade durante sua consolidação. Porém, muitos desses marcos históricos foram demolidos ou modificados de forma irreversível nas últimas décadas. O que ainda resiste encontra-se ameaçado pela ausência de políticas públicas eficazes, pela especulação imobiliária e por uma urbanização acelerada, que em vez de valorizar o passado, o apaga.


A história de Picos ilustra uma realidade comum a muitas cidades brasileiras de médio porte, onde a modernização desordenada prioriza a funcionalidade em detrimento da preservação. O descaso com a arquitetura histórica não só compromete o reconhecimento do valor cultural desses espaços, mas também representa a perda de oportunidades econômicas e sociais que poderiam surgir de um turismo histórico bem planejado e estruturado.


O Contexto Histórico de Picos

A história urbana de Picos está profundamente ligada ao crescimento econômico vivido entre os séculos XIX e XX. Fundada em 1834 como freguesia de Nossa Senhora dos Remédios, a cidade se destacou como um ponto estratégico para o comércio graças à sua localização privilegiada, no cruzamento de rotas que conectam o sertão piauiense a outras regiões do Brasil.


Esse período de prosperidade econômica deixou marcas evidentes na arquitetura do centro da cidade. Residências construídas por comerciantes abastados apresentavam fachadas simétricas, típicas da época. Igrejas, como a Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, combinavam elementos do barroco e do neoclássico, refletindo não apenas a força da fé católica, mas também o papel central da religião na formação e organização do núcleo urbano.


A inauguração das rodovias BR-316 e BR-407 consolidou Picos como um dos principais entroncamentos rodoviários do Nordeste. Esse novo papel, associado ao transporte e à logística, impulsionou o desenvolvimento econômico e atraiu mais moradores. Porém, esse progresso veio acompanhado de um alto custo para a identidade da cidade. A modernização acelerada resultou na demolição de antigas residências e construções históricas, que deram lugar a lojas e prédios genéricos, desprovidos de qualquer relação com a rica herança cultural e arquitetônica de Picos.


Exemplo emblemático: A Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, embora ainda esteja de pé como símbolo da cidade, passou por intervenções que alteraram parte de suas características originais. Reformas feitas sem critérios de restauração comprometeram elementos históricos da construção.


Luís Paulo Barão Vieira, de 54 anos, natural de Picos e profundo conhecedor da história local, lamenta essas mudanças. 

“A igreja, beleza, o piso novo é bonito, mas ele destrói uma história.” - Suas palavras ecoam o sentimento de muitos moradores, que enxergam no progresso desordenado não apenas um ganho econômico, mas também uma perda irreparável de identidade e memória", relata Luís.





Reprodução: José Maria Barros/GP1 2019              Foto: Vanessa Cristina - 2024


Os Impactos do Crescimento Urbano e da Modernização

O processo de urbanização desordenada em Picos teve um impacto direto e devastador sobre o patrimônio arquitetônico da cidade. A expansão do comércio e a construção de infraestrutura rodoviária transformaram o centro da cidade, outrora caracterizado por edifícios históricos, em um conglomerado de construções modernas. Sem uma legislação específica para proteção do patrimônio histórico, muitas edificações antigas foram abandonadas ou demolidas.


O entorno do Mercado Público, que poderia ser um ponto turístico marcante, exemplifica essa perda. Onde antes havia casas de fachada colorida e estruturas típicas do século XIX, hoje predominam construções sem planejamento estético, voltadas apenas à funcionalidade. O contraste entre a memória das antigas ruas e o cenário atual é gritante.


Essa transformação também impactou espaços de convivência e memória coletiva. Como destaca Luiz Paulo. 

“Próximo da minha rua havia um chafariz. E assim, devido às novas concepções de distribuição de água, esse chafariz perdeu valor. O que não deveria ter acontecido, porque é história, né?” - Afirma o morador. 

Essa fala reflete o sentimento de muitos moradores que lamentam a perda de elementos históricos que contribuíram para a identidade da cidade.



Reprodução: instagram @picosdasantiga / Foto: Acervo Museu Ozildo Albano - 1940

Foto: Vanessa Cristina - 2024


Algumas das perdas mais significativas incluem:

Casas de comerciantes locais: Esses imóveis, que testemunharam o auge do ciclo do algodão na região, foram substituídos por estacionamentos e lojas sem vínculo histórico.




Reprodução: instagram @picosdasantiga / Foto: Acervo Museu Ozildo Albano

Foto: Vanessa Cristina - 2024


Edifícios do entorno do mercado público: Muitas construções que poderiam ter sido restauradas para uso comercial foram descaracterizadas com reformas que retiraram elementos originais, como portas de madeira e fachadas detalhadas.




Reprodução: instagram @picosdasantiga / Foto: Acervo Varão/Museu Ozildo Albano

Foto: Vanessa Cristina - 2024


A falta de iniciativas governamentais para mapear e preservar os edifícios históricos contribui para o agravamento do problema. Embora existam leis federais, estaduais e da lei municipal 2.468/2009 que visa proteger o patrimônio histórico de Picos, poderiam ser aplicadas para a proteção desse legado. Além disso, a especulação imobiliária, combinada com a falta de conscientização da população sobre o valor histórico da cidade, cria um ciclo contínuo de destruição.


Por que preservar? o valor cultural e econômico

A arquitetura histórica de Picos não é apenas um registro físico de sua trajetória. Ela representa a identidade cultural de uma comunidade que, sem esses marcos, corre o risco de perder o vínculo com sua própria história. Mas a preservação vai além do valor simbólico. Ela pode ser um motor de desenvolvimento econômico sustentável para a cidade.


Os edifícios antigos contam histórias de famílias, tradições e momentos marcantes da vida social e econômica de Picos. Eles são uma conexão entre o passado e o presente, proporcionando à comunidade um senso de pertencimento. Cidades como Parnaíba (PI) e São Luís (MA) mostram como o investimento na preservação arquitetônica pode atrair turistas. 


A reutilização de edifícios históricos para novos fins, como restaurantes, pousadas e espaços culturais, é uma alternativa sustentável que reduz o impacto ambiental da construção civil e valoriza o patrimônio. Contudo, o município ainda enfrenta desafios consideráveis nesse aspecto.


Apesar de sua relevância cultural, Picos não possui nenhum bem tombado como patrimônio histórico, conforme mostra o gráfico abaixo. Esse dado, fornecido pela Coordenação de Registro e Conservação (CRC/SECULT) em 2022, expõe a falta de políticas públicas voltadas para a preservação da memória local. 
















Esse vazio no reconhecimento oficial não apenas dificulta a captação de recursos e o desenvolvimento de projetos de revitalização, mas também contribui para a negligência geral em relação ao patrimônio. Como observa um morador da cidade,

 “Um povo que não preserva sua história é um povo que tem dificuldade de valorizar o que é seu e aí sim, isso é muito prejudicial.” - Ratifica Luís Paulo.

A destruição do patrimônio arquitetônico de Picos vai além da simples perda de construções antigas; ela simboliza o abandono de uma parte vital da identidade da cidade. Reverter esse cenário exige um esforço coletivo que envolva o poder público, a sociedade civil e a iniciativa privada. 


Preservar a arquitetura histórica de Picos não é apenas uma questão de memória, mas também uma oportunidade. Esse legado pode se tornar um motor para o desenvolvimento cultural e econômico da região, convertendo o passado em um recurso valioso para o futuro.


 
 
 

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