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CAPOEIRA EM FAMÍLIA: TRADIÇÃO QUE ATRAVESSA GERAÇÕES


Presente em diferentes espaços e realidades, a capoeira segue sendo uma das principais expressões da cultura brasileira. Em Picos, três grupos distintos mostram que, apesar das diferenças, a prática compartilha um mesmo objetivo: manter viva uma tradição que atravessa gerações, unindo famílias, formando identidades e fortalecendo laços comunitários.

Por: Luiza Lustosa e Marcelly Borges 



Dá Origem às Rodas de Picos 

A capoeira é uma das expressões culturais mais marcantes do Brasil. Criada a partir de saberes africanos trazidos por pessoas escravizadas entre os séculos XVI e XIX, surgiu como forma de resistência, identidade e preservação cultural. Unindo luta, dança, música e tradição, atravessou períodos de perseguição e criminalização até ser reconhecida como patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) , em 2008, e Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), em 2014.

No Piauí, a capoeira se fortaleceu ao longo do século XX. Em Picos, a tradição começou a se organizar a partir da década de 1980, com a atuação de mestres pioneiros e a criação da Associação de Capoeira Palmares, em 1982, considerada uma das mais tradicionais da cidade. A partir desse marco, novos grupos surgiram e ajudaram a espalhar a prática por bairros, escolas e comunidades.

Hoje, a capoeira em Picos reúne tradição, inclusão e transformação social. Histórias de famílias inteiras ligadas à arte mostram como essa cultura segue viva, atravessando gerações e se renovando dentro e fora da roda.


Uma Tradição Dentro de Casa

Antes de ocupar a sala de casa, a capoeira ocupou o olhar. Foi ainda na infância de Mestre Pacu, ao atravessar um canteiro de obras para levar o almoço do pai em 1983 no Premen, que tudo começou. No meio do concreto e do trabalho duro, o que chamou atenção não foi o barulho das máquinas, mas o som do berimbau e o movimento circular de corpos em diálogo. Ali, sem saber, ele iniciava uma trajetória que não ficaria restrita a si. 

Anos depois, aquela descoberta atravessaria gerações. O que começou como um encantamento individual se transformou em prática cotidiana dentro de casa. Filho e filhas cresceram entre cantos, palmas e movimentos, não como imposição, mas como continuidade natural. Na família de Mestre Pacu, a capoeira não é apenas ensinada, mas vivida, incorporada à rotina, aos gestos e à forma de existir.


Grupo Ginga de Corpo durante roda de capoeira em Picos. Foto: Luiza Lustosa e Marcelly Borges
Grupo Ginga de Corpo durante roda de capoeira em Picos. Foto: Luiza Lustosa e Marcelly Borges

“Na família, a capoeira não é apenas ensinada, ela é vivida no dia a dia.”, afirma mestre Pacu.


Mais do que aprender golpes, a família compartilha princípios. O respeito ao tempo do outro, a disciplina do corpo, a escuta dentro da roda e a cooperação nos movimentos constroem uma base que ultrapassa o treino. A capoeira, ali, não separa prática e vida, ela costura ambas.


Muito Além da Luta

Definir a capoeira como luta seria reduzi-la. Dentro da roda, o confronto não se estabelece pela violência, mas pelo diálogo. Os corpos conversam, improvisam, se provocam e se respeitam, guiados pelo ritmo que o berimbau impõe. Há estratégia, mas também há dança; há técnica, mas também expressão.

É nesse espaço que o grupo Ginga de Corpo se consolida como mais do que um coletivo de treino. Fundado em 10 de julho de 2002 por Mestre Pacu, o grupo carrega uma trajetória que atravessa décadas e, neste ano, alcança a marca de 24 anos de existência. Mais do que um número, o tempo se traduz em histórias acumuladas, alunos formados e vínculos construídos dentro e fora da roda.

Para os integrantes, especialmente para a família que cresce dentro desse ambiente, a capoeira se revela em sua multiplicidade. Ela é luta para quem busca técnica, mas também é música para quem se encontra no canto, é expressão para quem se comunica pelo corpo e é cultura para quem reconhece sua história. Essa amplitude permite que cada um encontre seu próprio caminho, sem romper com o coletivo que sustenta a roda.

Ao longo dos anos, o grupo se tornou também um espaço de pertencimento. Ali, não se aprende apenas a jogar capoeira, mas a existir dentro dela. Cada treino reafirma que, mais do que golpes, o que se constrói é uma linguagem viva, pulsante e compartilhada que atravessa gerações e mantém a tradição em movimento. 

Embora o Ginga de Corpo represente uma trajetória consolidada na cidade, outros grupos também ajudam a construir a presença da capoeira em Picos.

A Associação de Capoeira Palmares, considerada a mais antiga em atividade no município, reúne mais de quatro décadas de história e se define a partir de um lema que sintetiza sua proposta: mais que um grupo, uma família. Ao longo desse percurso, a prática se mantém conectada às suas raízes culturais, incorporando expressões como o maculelê, que reforçam a dimensão histórica e artística da capoeira. 


Associação de Capoeira Palmares, grupo mais antigo em atividade em Picos. Foto: Luiza Lustosa e Marcelly Borges
Associação de Capoeira Palmares, grupo mais antigo em atividade em Picos. Foto: Luiza Lustosa e Marcelly Borges

“Mais que um grupo, uma família que preserva a história e a cultura da capoeira.”


Já no grupo Associação de Capoeira Educacional e Desenvolvimento da Arte e Cultura  (ACEDAC), a capoeira se apresenta como um espaço de formação que ultrapassa o treino físico. A prática é compreendida como extensão da vida cotidiana, em que cada movimento, desafio ou queda dentro da roda carrega um sentido de aprendizado que se reflete fora dela. Assim como nos demais grupos, o que se constrói não é apenas uma técnica, mas uma forma de pensar, agir e se posicionar no mundo.


Integrantes do grupo Associação de Capoeira Educacional e Desenvolvimento da Arte e Cultura (ACEDAC) durante o momento de prática. Foto: Luiza Lustosa e Marcelly Borges
Integrantes do grupo Associação de Capoeira Educacional e Desenvolvimento da Arte e Cultura (ACEDAC) durante o momento de prática. Foto: Luiza Lustosa e Marcelly Borges

“Cada movimento dentro da capoeira se transforma em aprendizado para a vida fora dela.”



Aprender desde cedo

Nos três grupos acompanhados, a presença de crianças não é apenas comum, é parte fundamental da continuidade da capoeira. Em muitos casos, o primeiro contato acontece dentro de casa, ao observar pais, irmãos ou outros familiares participando das rodas. Em outros, o incentivo vem da própria comunidade, que vê na capoeira uma forma de formação social e cultural.

Mais do que aprender movimentos, as crianças são introduzidas a um conjunto de valores que fazem parte da prática. O respeito ao outro, a escuta, o senso de coletividade e a disciplina são ensinados de forma natural, acompanhando o ritmo das músicas e a dinâmica da roda.

Além disso, o aprendizado desde cedo contribui para o desenvolvimento físico, estimulando coordenação motora, equilíbrio e consciência corporal. Ao mesmo tempo, fortalece o vínculo com a cultura, permitindo que a capoeira seja vivenciada não apenas como atividade, mas como parte da identidade.

Para compreender melhor essa dimensão, o infográfico a seguir apresenta dados sobre a importância da capoeira no Brasil e no Piauí.


Infográfico: A importância da capoeira no Brasil e no Piauí: índices e dados relevantes. Fonte: elaboração própria, com auxílio de ferramenta de inteligência artificial (Gemini), a partir de dados sobre a capoeira no Brasil e no Piauí.
Infográfico: A importância da capoeira no Brasil e no Piauí: índices e dados relevantes. Fonte: elaboração própria, com auxílio de ferramenta de inteligência artificial (Gemini), a partir de dados sobre a capoeira no Brasil e no Piauí.


Os dados apresentados mostram que a capoeira vai além do aprendizado individual, alcançando diferentes níveis da sociedade. Sua presença em instituições de ensino, iniciativas culturais e projetos sociais reforça o papel formativo da prática, especialmente quando iniciada na infância. Dessa forma, a capoeira contribui não apenas para o desenvolvimento físico e mental, mas também para a preservação de uma herança cultural que se renova a cada geração.


Uma herança que continua

Mesmo com trajetórias diferentes, os três grupos compartilham um mesmo objetivo: garantir que a capoeira não se perca com o tempo. Essa continuidade não acontece por acaso ela depende do compromisso de quem ensina e do interesse de quem aprende.

Em muitos casos, esse processo é marcado pela relação entre gerações. Mestres formam alunos, que mais tarde passam a ensinar outros, criando um ciclo que mantém viva a tradição. Dentro das famílias, esse movimento se torna ainda mais forte, já que o aprendizado ultrapassa o espaço das aulas e passa a fazer parte do cotidiano familiar.

Mais do que repetir movimentos, dar continuidade à capoeira significa preservar uma história marcada por resistência, cultura e identidade. É uma forma de manter viva uma prática que carrega significados coletivos e que se adapta ao presente sem perder suas raízes.

Assim, a capoeira segue sendo transmitida não apenas como conhecimento técnico, mas como uma herança cultural que se renova a cada nova geração.


Para mais detalhes, acompanhem a nossa reportagem exclusiva:


Reportagem: Tradição que atravessa gerações. Vídeo Por: Luiza Lustosa e Marcelly Borges




 
 
 

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