O quão longe a máscara do patriarcado foi e está indo?
- ruthycosta

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Por Paula Marques
Em 2025 foram contabilizadas 155.111 denúncias de violência contra mulheres no Brasil. Em 2026, a Central de Atendimento à Mulher-Ligue 180 já registrou um aumento de 23% nas denúncias de violência contra mulheres apenas nesse primeiro trimestre do ano.
No início deste ano, a imprensa deu um maior foco em casos de misoginia, feminicídios e discursos misóginos. Porém, esses casos não são atuais e muito menos naturais, apesar de que ao longo do tempo, tenha sido naturalizado. Tratar a mulher como “objeto”, “coisa”, “submissa” e como “objeto de prazer”, foi enraizado na sociedade ao longo dos anos através de livros, poemas, discursos de superioridade masculina e cordialidade.

A distorção e o Patriarcado, a raiz de ódio:
Segundo a bíblia, a mulher foi criada para ser uma “auxiliadora que lhe corresponda” não uma serva inferior, mas uma parceira indispensável para o homem. A Bíblia orienta a esposa a ser submissa ao marido, o que é entendido não como inferioridade, mas como uma ordem funcional e respeito mútuo, refletindo a estrutura divina.
Entretanto, ocorre uma distorção dessa ideia até nos dias atuais na machosfera e nos discursos que levam a nomenclatura de red pill, de que a mulher é inferior às vontades do homem. E uma das narrativas mais distorcidas da bíblia é do Jardim do Éden em Gênesis, pois após a desobediência, a punição divina inclui a frase "o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará" (Gênesis 3:16). Muitos interpretaram essa sentença não como uma descrição das consequências trágicas do pecado, mas como uma ordem divina legítima para o domínio masculino. Esse contexto distorcido foi uma das motivações para o patriarcado e a misoginia reinarem desde os primórdios.
O patriarcado é um sistema social que afirma que a submissão da mulher é a chave para uma estrutura familiar e social perfeita, já que as mulheres são “frágeis, instáveis, incapazes de tomar decisões importantes”.
A misoginia caracteriza o ódio, o desprezo e o preconceito contra as mulheres. E se engana quem pensa que o contexto desses termos são recentes ou que já foram superados. Ao longo da história, através de textos, discursos, ações, o patriarcado e a misoginia sempre andaram juntos. A questão é que eles ainda estão presentes e ainda são validados no século XXI.
Na Grécia Antiga, Aristóteles estabeleceu em sua obra “Geração dos Animais” que os seres humanos e os animais resultam em uma luta interativa entre a “Forma” e a “Matéria”. Aristóteles argumenta que a geração de um novo ser, é sempre um processo onde o macho (representado pela forma) busca impor estrutura sobre a matéria (a fêmea). E o nascimento de uma fêmea é considerado uma “falha” ou “má disposição" da matéria.
Já Kant, em seus escritos, relata que não havia nada mais feio para ele do que uma mulher discursando filosofia, ou uma mulher que tinha a cabeça “entulhada” de grego ou mecânica. Uma mulher assim, na visão de Kant, deveria usar barba, pois sua aparência está em desacordo com sua essência.
Uma citação que é bastante associada às análises que Gilles Lipovetsky fazia sobre o papel da moda e o ideal de beleza feminina e sobre a evolução do papel de uma mulher, ao estudar a sociedade é que: Aos homens pertencem a razão e a força. As mulheres a fraqueza de espírito e a beleza do corpo.
O impacto de pensamentos e discursos como o desses filósofos reflete até nos dias atuais. O homem por pensar ser superior e mais racional do que a mulher, que a enxerga como um ser frágil, fraca, emocionalmente instável e bonita, sentindo-se no dever de dar ordens a mulher que, no pensamento dele, é desprovida de pensamentos racionais, e de trata-lá apenas como um ser que serve para reprodução e para o prazer. Logo, deve obedecê-lo e ser submissa a todas as suas vontades.
A raiz em território Nacional;
Mas claro que esse sistema não foi enraizado apenas por gregos e europeus. O sistema patriarcal foi enraizado no Brasil através da colonização, tendo o homem como figura de autoridade, que tinha poder político e econômico. A mulher e seus descendentes eram submissos ao homem provedor (pai e marido).
Entretanto, na era do Romantismo da literatura brasileira, o patriarcado se consolidou de uma maneira menos bruta e mais sutil; através da literatura feminina. Nesse período as mulheres começaram lentamente a se emancipar do analfabetismo e da opressão patriarcal, começando a ter hábito pela leitura. E a literatura do romantismo fixava a ideia da mulher como objeto de adoração e posse. Basicamente, a literatura dessa era, se tratava de um manual de qual era o lugar das mulheres: Ser recatada e submissa ao marido, ter dedicação ao lar, ter fragilidade. Essa era a verdadeira beleza de uma mulher, ser a “mulher-anjo” e indefesa, que necessita da proteção de um homem.
No texto “Capítulo dos Chapéus” de Machado de Assis, a personagem Mariana é descrita no texto como: “Meiga, de uma plasticidade encomendada, capaz de usar a mesma divina indiferença tanto um diadema régio como uma touca.” e sendo retratada como fútil, já que também é descrito que Mariana tratava seus objetos, cortinas e tapetes como filhos, além de ler apenas três livros diversas vezes e ter pouca noção.
Nos livros do romancista José de Alencar, também podemos notar a raiz do pensamento patriarcal de como uma mulher era vista e como deveria ser:
O livro intitulado “Lucíola” significa: pequena luz. A personagem principal é uma cortesã chamada Lúcia. Na trama, Lucia trata seu próprio corpo e sua imagem própria como um objeto, pois sem dote e sem proteção da família a moça não seria capaz de sobreviver e nem de ascender socialmente. Dando o poder aos homens de serem seus “donos”.
Já no livro “A Senhora”, também de José de Alencar, narra a trama de Aurélia Camargo, uma moça pobre e apaixonada por um homem ambicioso chamado Fernando Seixas. Aurélia é sonhadora, frágil, descartável e dependente, que é trocada por Fernando por uma noiva com um dote melhor. Porém, Aurélia recebe uma herança de seu avô paterno. Com o dinheiro, Aurélia “compra” Fernando para se casar com ela, humilhando o homem o chamando de “homem vendido” e tratando ele como um objeto possuído. É uma inversão dos papéis tradicionais, Aurélia se utiliza das mesmas regras do sistema patriarcal para sua vingança, entretanto, ela continua sendo refém do dinheiro e do casamento.
Avançando para o século XX, mais especificamente no ano de 1936, Sérgio Buarque de Holanda ressignificou a palavra Cordialidade, que costumava evocar gentileza, cortesia e afeição. Em seu livro “Raízes do Brasil”, Sérgio traz à tona a verdadeira face do termo “Homem Cordial”. O homem cordial, assim como o termo cordialidade, era visto e interpretado como um homem bonzinho, passivo, submisso, um homem guiado pela emoção e afetividade, já que a palavra “cordial” vem do latim “cordis” que significa coração. Porém, Sérgio Buarque deixa bem claro na década de 30 que o homem cordial não é passivo. Pois se ele é guiado pelas emoções, quando se frustra, ele não pensará em seus atos e irá agir de forma impulsiva, o que poderia e causa violência.
A era do Romantismo é a consolidação de que o homem é um ser superior e a mulher é submissa e frágil. No século XX, o homem é consolidado e visto como cordial, mas as histórias que tratam a mulher como objeto e dependente de um homem se estendem até os dias atuais. Pois apesar de tantas evoluções e escritas que se opõem a esse sistema na literatura na contemporaneidade, enquanto houver pessoas que acreditem nesse sistema, histórias como essas vão continuar persistindo.

Os frutos no século XXI: A expansão dos discursos
Mas afinal, no que resultou o fato de que essa narrativa patriarcal persiste até nos dias atuais? Como essas narrativas ainda persistem?
No século XXI, a comunicação se expandiu graças à internet e às redes sociais, facilitando a interação entre as pessoas e a liberdade de expressão. Mas em um ponto de luz sempre existe a sombra. Nas redes sociais a propagação de discursos de ódio surgiram mascarados de liberdade de expressão. Muitas mulheres, além de sofrerem assédios pessoalmente, na atualidade também sofrem assédio e desrespeito na web.
Até 2018 não havia uma lei específica para a justiça agir contra os casos de misoginia na internet, o que criava uma sensação de impunidade. Mas em 2018 a história da professora e blogueira Lola Aronovich inspirou a criação para que essa situação fosse revertida. A Lei Lola (Lei nº 13.642/2018) permite que a Polícia Federal investigue casos de misoginia online.
Desde 2008, Lola sofre uma intensa campanha de difamação, ameaças de estupro e morte, e até mesmo ataques com ameaça de bomba à universidade onde trabalhava. Ao tentar registrar boletins de ocorrência, ela esbarrou na falta de estrutura das polícias estaduais. Em um dos relatos, a própria escrivã da Delegacia da Mulher de Fortaleza se recusou a assinar o BO com medo de também se tornar vítima de ataques virtuais.
Em 11 de Dezembro de 2023, a conta de Janja da Silva na rede social X (Ex Twitter) foi hackeada. Levou cerca de uma hora para que as mensagens publicadas durante a invasão da conta fossem apagadas. Porém, durante esse tempo, uma série de ofensas dirigidas a Janja, ao presidente Lula Inácio e ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes foram publicadas na conta da primeira-dama. As ofensas ao presidente e ao ministro Alexandre de Moraes foram sugerindo que ambos eram ladrões, oportunistas, vagabundos e etc. Já as ofensas direcionadas à primeira-dama, todas tinham cunho sexual e pornográfico. Ofensas como “puta”, “vadia”, “infiel", “estuprada” e etc.
Em Novembro de 2025, a jornalista Domitila Becker repreende o colega de trabalho, o jornalista Juca Kfouri, após ele fazer uma piada sobre certa pauta que no momento da transição ao vivo, estava informando uma notícia sobre Virginia Fonseca. O jornalista Juca disse que uma pauta sobre esse assunto, deveria estar sendo apresentada pela Domitila ou outra jornalista mulher da equipe, pois aquele tópico não deveria estar sendo noticiado por um homem repórter, e sim, por uma mulher repórter, pois elas fariam muito melhor do que ele. A jornalista então disse: “Juca, eu te admiro muito, mas não posso deixar passar essa, cara. Eu achei muito ruim sua piada. É por causa de piadas machistas como essa que a gente vê tantos feminicídios, tanto preconceito e machismo". E ela finalizou: “ Sei que você é um aliado na nossa luta diária aqui das mulheres no futebol, no jornalismo esportivo. Então, gostaria de continuar contando com você do nosso lado.”

E daqui para frente?
O patriarcado, o homem cordial que no trabalho é gentil, mas dentro de sua casa, ao se sentir contrariado e frustrado, desconta com violência física, verbal e psicológica em sua esposa e às vezes em seus filhos que ele deveria proteger nunca deixaram de existir, eles apenas se reinventaram com o tempo. A machosfera foi criada na internet pois homens não concordavam com o fato de existirem leis para proteger as mulheres. A misoginia, o discurso red pill, todos eles vêm de raízes fortes do passado que não são cortadas, mas sim, incentivadas, acobertadas e ensinadas para a próxima geração de homens. O aumento de casos apenas no Brasil no primeiro trimestre, demonstra que não estamos evoluindo para uma melhora. Mulheres continuam sendo vistas como objetos, mulheres continuam sendo silenciadas, mulheres continuam sendo agredidas, mulheres continuam procurando defeitos em si mesmas, quando o problema é um sistema que forma homens para acreditar nessa superioridade. Por isso, a jornalista Domitila Becker não foi exagerada ou “feminista demais” ao cortar seu colega, o preconceito nasce desse tipo de “piada”, de “comentário”.
E você? Já decidiu se vai apoiar essas piadas e comentários enquanto tem mulheres sendo tratadas apenas como um objeto, quando elas tem tantos sonhos e orações que mal cabem no pensamento e transbordam em lágrimas? Enquanto mulheres talentosas e capazes são ofendidas, apenas por serem do gênero feminino?



Que reportagem necessária. Uma análise profunda e bem fundamentada. A articulação entre os elementos históricos, filosóficos e sociais foi muito bem construída para evidenciar a reinvenção e a permanência do patriarcado. Parabéns pelo incrível trabalho, Paula!
Maravilhosa a reportagem, quando entramos no assunto da religião presente na misoginia eu sempre penso na característica masculina que é dada pra imagem de "Jesus e/ou Deus, que sempre foi descrito como homem, mas quase nunca é citado como mulher. Talvez porque seria difícil para o homem seguir os mandamentos ditos por uma mulher, justamente por já existir essa exclusão da mulher.