“Esse sorriso vem de onde?”: Dona Vanda e o sorriso que cruza a Uespi
- JOAO MIKAEL DOS SANTOS LOPES

- há 8 horas
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Por Mikael Lopes, João Gabriel Chaves e Thamyres Sousa
Quem passa pela Universidade Estadual do Piauí (Uespi) sente todo o carinho e aconchego que a instituição oferece. No campus Prof. Barros Araújo, em Picos, uma das pessoas que tornam essa trajetória mais leve em meio à rotina é Vanda Maria de Sá.

Conhecida carinhosamente como Dona Vanda pelos alunos e funcionários, ela é responsável por manter o espaço organizado e limpo, atuando nos serviços gerais da instituição. Além da limpeza, Vanda tem como lema o afeto, o cuidado e um sorriso de canto a canto do rosto, facilmente percebido por quem cruza com ela pelos corredores.
Atualmente, com 60 anos, sua história com a Uespi começou há 20 anos, quando uma grande amiga, Oneide Rocha, que exerceu a função de Reitora pro-tempore da Uespi, atividade exercida de forma temporária, por nomeação, lhe ofereceu a oportunidade de trabalhar na universidade.
Antes disso, Vanda já atuava na limpeza da rede municipal de ensino de Picos.
O campus de Picos passou por diversas mudanças e deslocamentos nas últimas duas décadas, e Vanda acompanhou todas. Iniciou seu trabalho quando o campus ainda funcionava no local de fundação no bairro Junco, passou por escolas e, finalmente, viu a Uespi se estabilizar onde hoje se encontra, no bairro Altamira.

Sua rotina até chegar ao trabalho não é fácil. Vanda sai de casa às 15h para pegar o ônibus, chega à Uespi por volta das 16h e segue até o fim do expediente, às 21h40. O trabalho de cuidar não acaba por aí. Em casa, ela se dedica à família e abre a porta também para professores, que receberam o status de amigos da família, depois de visitas e outros momentos de aproximação.
Além dos muros da Uespi
Natural da localidade Serra do Jatobá, em Monsenhor Hipólito, Vanda viveu ali até os 19 anos, quando se casou e mudou-se para Picos.

Como ter uma família numerosa era uma realidade comum no país, na casa de Dona Vanda não foi diferente. Na serra, sua família era composta por nove irmãos, além da mãe e do pai. O lar cheio era sinônimo de uma vida simples e feliz, marcada pelo trabalho na lavoura. Essas dificuldades a impediram de frequentar a escola, mas ela recorda essa fase como a mais feliz da vida.
“Trabalhei na roça até os meus 19 anos, de 8 até 19. Não estudei, não tinha colégio como tem hoje. Tive três meses de aula particular, que meu pai pagou para um professor ensinar a gente. Na roça, a gente plantava feijão, mandioca e milho, trabalhava na farinhada, mas a melhor fase da minha vida foi minha infância”, lembra a servidora.
A realidade da jornada de trabalho de Dona Vanda na infância e adolescência, marcada pelas dificuldades de acesso à educação, ainda encontra reflexo em dados atuais. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC), a evasão escolar é um cenário comum para jovens que vivem na zona rural do Brasil.
Os dados apontam que, da população de 15 a 17 anos, que soma cerca de 2,2 milhões de pessoas, 34% não frequentam a escola. Entre os que estão matriculados, apenas 12,9% cursam o ensino médio, etapa considerada adequada para essa faixa etária.
Entradas e saídas
Ao longo desses 20 anos de serviço, muitas pessoas passaram pela vida de Dona Vanda. Os alunos, que permanecem de quatro a cinco anos na universidade, acabam deixando lembranças e saudades.
“Deixa muita saudade, deixa saudade demais. Tem alguns que ainda são meus amigos no Face, (se referindo a rede social facebook) ainda mandam mensagem. Quando encontro, é aquela amizade. Mas tem uns que marcam mais do que os outros. Tem muitos que já passaram por aqui e deixaram saudade demais, demais mesmo. Tem a Vitória, de Agronomia, que não vi mais, já vai se formar. E tem também uma turma de Administração, o João Vitor…”, relembra.

Entre os muitos rostos que cruzaram sua jornada na Uespi, dois foram ainda mais especiais: seus filhos Valdênia e Valdecio, que estudaram na instituição. O filho cursou quatro períodos de Agronomia, mas optou por se formar em História, na Universidade Federal do Piauí (UFPI). Já a sua filha, se formou em Biologia, retornando depois como professora. Ver a filha à frente de uma sala foi motivo de grande orgulho.
“Foi bom e ela foi professora também da Uespi. Deu aula nos cursos de Biologia e Enfermagem, [foi] celetista. O orgulho foi grande. Eu sou orgulhosa demais, sou orgulhosa dos meus filhos”, fala com brilho nos olhos.
Dificuldades
Por trás do sorriso constante, Dona Vanda também carrega fases difíceis, marcadas por perdas materiais e emocionais.
Recentemente, o seu irmão mais novo faleceu e, em janeiro de 2025, durante as enchentes que atingiram Picos, sua casa foi fortemente afetada pelas chuvas.
“E o pior não foi nem o que eu passei agora na entrada do ano, né? Perdi bens materiais, inclusive minha casa, tô morando de aluguel. É uma fatalidade, e ainda teve a perda do meu irmão... isso eu não vou esquecer nunca. Nem comparo com a perda da casa. O resto a gente recupera, né?! Um dia, se eu ainda puder recuperar a minha casa, tudo bem. Se não, não sou a primeira a pagar aluguel”, diz com coragem.
Para ela, a superação desses momentos dolorosos foi graças à mobilização do corpo acadêmico.
“Infelizmente, depois que perdi a casa, fiquei meio desgostosa. Mas o apoio do pessoal foi bom demais, todo mundo me apoiou, desde a direção até alunos e funcionários. ‘Armaria’, me senti muito especial. Pensei que não tinha esse merecimento, esse carinho de todo mundo que se dedicou pra mim”, relata emocionada.

O que a motiva a continuar com sua essência é o amor que recebe diariamente.
“Sou grata pelo carinho de todos, amo todos, todos, todos”, repete entusiasmada.
“Tá acontecendo tanta coisa que eu nem sei mais explicar. Como o professor Marcos Vinícius me disse: ‘A senhora passa por tanta coisa, e esse sorriso vem de onde? A senhora tem Deus no coração, viu?! Porque pra ter esse sorriso ainda...’”, reflete.
Extensão de cuidado
A história de Dona Vanda é o reflexo de como o percurso acadêmico vai além dos três pilares do ensino, da pesquisa e da extensão.
É também sobre acolhimento e afeto, seja ao oferecer uma xícara de chá de erva-cidreira e maracujá, compartilhar uma bolacha cream cracker ou simplesmente trocar uma conversa sincera nos bancos de cimento da universidade.




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