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Rituais de gratidão: a fé em São Gonçalo e as promessas cumpridas

Por Maria Rita Leal e Maissa Stefany Nonato , alunas do 3° período de jornalismo pela UESPI, Picos


No coração do Curral Velho, interior de Inhuma, Piauí, a fé em São Gonçalo brilha em cada promessa feita e cumprida. As tradicionais Rodas de São Gonçalo, marcadas por cantos, danças e devoção profunda são mais do que um rito cultural: são testemunho vivo de gratidão pelas graças alcançadas. Entre histórias de cura e milagres, os fiéis cumprem seus votos, mantém uma tradição que tem religiosidade e identidade.



Vídeo 1: Roda de São Gonçalo

Maria Rita


História 

A tradição que acontece no Piauí, veio de Portugal e vem se perpetuando. Gonçalo do Amarante, foi um missionário português do século XI que era conhecido pela sua alegria, música e devoção.  Considerado santo de causas diversas, especialmente ligado à cura, também foi visto como casamenteiro e padroeiro dos violeiros e prostitutas. Ele usava sua viola para pregar o evangelho e frequentava prostíbulos aos sábados com o objetivo de promover danças para desviar as mulheres da prostituíção dominical, sempre com pregos nos sapatos para manter o foco espiritual. 


As rodas de São Gonçalo representam a gratidão dos devotos pelas  graças alcançadas . São realizadas como forma de pagar promessas em respeito à natureza festiva e exigente do santo.


Foto: Maria Rita
Foto: Maria Rita
















Relatos de fé

No momento de desespero, a fé se torna um refúgio poderoso. No interior de Inhuma, a tradição portuguesa ganha um novo contorno. Entre lágrimas e orações, um pedido nasceu no coração de uma mãe, Dona Tereza Holanda, que via o seu filho, José Francisco, rolar-se no chão de dores, sem respostas da medicina. São Gonçalo foi chamado ali.


Dona Tereza Holanda. Foto: Maria Rita
Dona Tereza Holanda. Foto: Maria Rita




“Naquele momento, pedi a Deus por intercessão de São Gonçalo, que o curasse. Prometi fazer a Roda com 12 jornadas. Combinei que, se ele aceitasse, pagaria a promessa na casa dele”, lembrou ela.

 




A promessa feita revelou a profundidade de sua crença e o compromisso em cumprir o ritual de gratidão caso sua prece 

fosse atendida.

Dona Tereza Holanda, Foto: Maria Rita
Dona Tereza Holanda, Foto: Maria Rita




“Eu fiquei muito alegre ao vê-lo andando novamente”- Dona Tereza







Dona Tereza recorda com emoção um dos momentos mais difíceis da sua vida. Ao refletir sobre a recuperação do seu filho, ela compartilhou a sua alegria em poder ver seu filho saudável e seguindo com a vida. A fé e a promessa cumprida trouxeram uma transformação significativa para sua família.


 “Lembrei logo do momento de agonia em que corria de um lado para o outro, agoniada ao ver o meu filho naquela situação. E hoje, está bem, andando e trabalhando normalmente com as coisas dele. Eu fiquei muito alegre ao vê-lo andando novamente. Fiz a promessa e ele melhorou, graças a Deus, a São Gonçalo, que me ouviu. E a promessa foi bem paga”, finalizou Dona Tereza.




Vídeo 2: Promessa da Dona Tereza sendo paga

Vídeo: Maria Rita



Roda de São Gonçalo

Sr. Jones Rodrigues. Foto Maria Rita.
Sr. Jones Rodrigues. Foto Maria Rita.


“Quem faz com fé, se sente dessa forma, feliz” - Jonas Rodrigues









O cumprimento de uma promessa feita a São Gonçalo exige do promesseiro um gasto financeiro significativo, pois é preciso cobrir as despesas com alimentação do grupo e vinho para os que participam da roda.

“A roda tem algumas regras: as mulheres formam duas filas horizontais, uma de cada lado de acordo com as quinas da mesa, em que o santo está. Os “caqueiros”(que tocam os instrumentos feitos de cuia) precisam ser em quantidade de números pares, em 4 homens. A sanfona, o triângulo e o zabumba são essenciais, pois eles conduzem as músicas com a melodia certa, que tem um ritmo especial para São Gonçalo”, detalhou o Sr. Jonas. 

O Sr. Jonas destaca a importância das mulheres que desempenham um papel essencial, seja na execução das danças e cânticos ou na transmissão dos saberes que sustentam essa celebração.


As jornadas, que são as etapas da dança, seguem um formato bem organizado. As mulheres, em pares de até oito, são tiradas de suas filas e levadas até a roda. Ali, elas dançam em movimentos precisos, passando uma pela outra, alternando entre a direita e a esquerda, até que a etapa termine. Depois, entram em cena as "guias", que podem ser mulheres ou até duas crianças. Elas dançam separadas de todas as outras, junto aos caqueiros, em um momento que marca o encerramento de cada jornada.


Ele contou com entusiasmo: “Toda vez que as ‘guias’ dançam, é sinal de que mais uma jornada chegou ao fim”.


No final da roda, chega a hora do "beijar o santo". É um momento carregado de emoção e gratidão, feito com muito cuidado, de duas em duas pessoas. São as mulheres que agradecem pelas graças recebidas, alcançadas por sua intercessão. Depois que a celebração termina, o santo é levado de volta ao seu lugar especial dentro da casa. Todos participam juntos desse momento, com uma mistura de festa, respeito e cuidado, celebrando e guardando São Gonçalo no seu devido lugar.


Vídeo 3: As mulheres beijando o santo São Gonçalo

Vídeo: Amanda Aguiar


Respeito a tradição

Conhecedor das tradições populares, devoto de São Francisco de Assis e São Gonçalo,fervoroso, o Sr. Jonas compartilha com emoção a sua experiência e visão sobre a celebração de São Gonçalo. Para ele, essa prática vai muito além de uma simples manifestação cultural é uma expressão de gratidão, marcada por respeito e profundo significado espiritual.


“Essa devoção é muito especial para muitas pessoas. Aqui em casa, já fizemos a Roda de São Gonçalo uma vez, depois que a minha esposa Ducarmo, conseguiu uma graça. Foi uma celebração linda, com muita gente envolvida. Eu gosto muito de assistir quando sei que vai ter uma Roda de São Gonçalo em algum lugar.  É uma alegria imensa, uma emoção boa, uma sensação de graça. Parece que Deus e São Gonçalo estão ali do nosso lado, naquele momento, junto a gente. Quem faz com fé, se sente dessa forma, feliz”,” finalizou ele.

Suas palavras refletem a importância de manter o sentido original da devoção, admiração e sua ligação com o sagrado.

Essa tradição não pode ser realizada por brincadeira, São Gonçalo foi festeiro, mas o objetivo é louvar a Deus e agradecer pelas vitórias. Quem conduz a reunião precisa ter conhecimento e repeti-la de forma correta.






 
 
 

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