Depressão Pós-Parto: O silêncio da Maternidade
- ruthycosta

- há 4 dias
- 7 min de leitura
A dor silenciosa causada pela depressão pós-parto que muitas pessoas não veem e que afeta a maioria das mulheres é uma realidade marcada por sofrimento, culpa, medo e solidão.
Por: Leidiani Santos e Sheila Avelino

Registro de uma mãe com sua terceira filha. Foto: Leidiani Santos // Editada: Sheila Avelino.
A depressão pós-parto (DPP) é uma condição médica que afeta muitas mulheres. Segundo o Ministério da Saúde,a depressão pós-parto é um transtorno depressivo que surge após o nascimento do bebê, caracterizado por tristeza intensa, fadiga, ansiedade, perda de prazer, culpa excessiva e dificuldade de cuidar do recém-nascido. E pode comprometer a saúde da mãe e o vínculo com o filho.
A DPP pode ser vista como um problema que afeta apenas as mães, porém, suas consequências podem atingir tanto o parceiro, como familiares e o próprio recém-nascido. O Ministério da Saúde explica que os sinais podem surgir a partir das primeiras semanas ou meses depois do parto. Porém, a intensidade e duração varia de caso para caso, podendo ocorrer entre duas semanas ou até um ano depois do ocorrido. Nesse período, é importante que a mãe tenha um resguardo e todo cuidado, sempre que possível com um acompanhante ao seu lado para garantir uma recuperação segura. Contudo, nem todas as realidades contam com a possibilidade de acompanhamento. Muitas mães enfrentam tudo isso sozinhas.
A depressão pós-parto é causada pela combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Entre eles estão a queda dos hormônios após o parto, sentimentos de culpa, expectativas sobre a maternidade, traumas anteriores, isolamento, excesso de responsabilidades, violência doméstica e dificuldades financeiras. Muitas mulheres também enfrentam o silêncio e a falta de apoio devido ao estereótipo que idealiza a maternidade como uma realização plena e natural. A doença provoca alterações emocionais e físicas que comprometem a rotina da mulher, dificultando o vínculo com o recém-nascido e o desempenho das atividades diárias.
Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 10% a 20% das mulheres desenvolvem depressão no primeiro período pós-parto, índice que pode ser ainda maior em países de média e baixa renda. No Brasil, a OMS aponta que aproximadamente uma em cada quatro mulheres apresenta sintomas de depressão após o nascimento do bebê, evidenciando a necessidade de diagnóstico precoce e acompanhamento adequado durante o pré-natal e o puerpério.
Especialistas ressaltam que a depressão pós-parto tem tratamento e que o apoio da família e dos profissionais de saúde é fundamental para a recuperação da mulher. O acompanhamento psicológico, o tratamento psiquiátrico quando necessário e uma rede de apoio acolhedora contribuem para reduzir os impactos da doença e fortalecer o vínculo entre mãe e bebê.
O Ministério da Saúde reforça que qualquer sinal persistente de tristeza intensa, desesperança ou dificuldade em cuidar de si e da criança deve ser avaliado por um profissional de saúde. Embora o tema tenha ganhado maior visibilidade nos últimos anos, o preconceito e a falta de informação ainda são obstáculos para o diagnóstico e o tratamento. Campanhas de conscientização e políticas públicas voltadas à saúde mental materna buscam romper o silêncio que cerca a depressão pós-parto, incentivando as mulheres a procurarem ajuda e mostrando que a maternidade não precisa ser vivida em sofrimento silencioso.

Psicóloga, Victória Aguiar Costa. Foto: Leidiani Santos
Em uma entrevista com uma profissional que atua em psicologia social em Ipiranga do Piauí,ela relata casos frequentes tanto de mães que perderam o bebê quanto de mulheres que desenvolvem depressão sem ocorrência de óbito do bebê. “A depressão pós-parto acontece quando a mãe, muitas vezes, não suporta a dor de ter perdido o filho. Às vezes ela vem imediatamente; em outras, ela perdura por muito tempo. O luto tem fases que não são constantes; dependem muito do caso”, diz Vitória Aguiar Costa, psicóloga social que acompanha famílias pelo Centro de Referência da Assistência Social (CRAS). Em razão da falta de psicólogos no município de Ipiranga, profissionais de assistência social, por vezes, acabam acolhendo demandas clínicas até que haja encaminhamento adequado.
A psicóloga destaca que o desgaste físico e emocional da maternidade pode igualmente comprometer o estabelecimento do vínculo entre mãe e filho. A sobrecarga de responsabilidades, a privação de sono, dores pós-cirúrgicas e a ausência de apoio familiar ou conjugal contribuem para que muitas mulheres tenham dificuldades em “absorver” o novo papel de cuidadora. “Sem rede de apoio ou com parceiros ausentes, a mulher não consegue perceber uma saída e isso dificulta criar vínculo com a criança”, ressalta Vitória.
A psicóloga também menciona a influência das redes sociais na formação de expectativas irreais sobre a maternidade. A circulação de imagens de maternidade “perfeita”, mães que emagrecem rapidamente, se recuperam sem dificuldades e mantêm rotinas impecáveis, gera comparação, culpa e frustração. “O que os algoritmos mostram é uma maternidade perfeita. Isso gera cobrança nas mães reais, que não têm babás ou uma rede de apoio estruturada”, ela explica.
Ela também orienta que a busca por atendimento deve ocorrer ao primeiro sinal de alteração significativa no comportamento ou bem-estar: perda de prazer em atividades anteriormente apreciadas, desinteresse pelo filho, descuido pessoal, choro excessivo, ansiedade intensa ou incapacidade de realizar tarefas cotidianas. “Procure ajuda quando sentir que não consegue fazer o que fazia normalmente”, alerta a profissional.
Kelly Avelino, estudante de fisioterapia e mãe, descreve como a depressão iniciou ainda na gestação e se aprofundou após o nascimento prematuro do filho. "A partir do 5º mês comecei a ter problemas. Não estava mais tendo vontade de sair da cama, tinha problema para resolver as coisas da criança. Comecei a ter muitos episódios de choro", conta ela, lembrando que a gravidez teve complicações e resultou no parto prematuro.
A falta de suporte familiar e conjugal agravou o sofrimento. "Perguntavam às vezes, mas não tive apoio", afirma. Mesmo assim, sua relação com o filho foi marcada por um apego intenso. Na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ela permanecia na porta; depois da alta, não conseguia dormir, vigiava a respiração do bebê e temia qualquer sinal de sangramento nas fraldas. "Eu não conseguia aproveitar,estava sempre preocupada", relata.
A entrevistada conta que a culpa e a incompreensão das pessoas aumentaram o sofrimento. "Muita gente acha que é drama, que a pessoa faz por querer. Não é assim. É algo que a pessoa não tem controle", afirma, apontando a necessidade de reconhecimento da condição como problema de saúde. Ela também conta que enquanto o bebê estava internado, havia começado um tratamento com psicóloga e o uso de medicamentos logo após a alta do hospital,
Entre os sinais mais difíceis de se reconhecer, ela cita a perda de autoestima. "Desde que o menino nasceu eu não consigo me olhar direito no espelho ou tirar fotos..." O trauma também reflete nos planos futuros, a experiência deixou a mãe decidida a não ter outros filhos. "Tenho certeza de que eu não quero. Fiquei com um trauma grande. Não consigo imaginar passar por tudo isso de novo", diz, ressaltando o isolamento durante a gravidez e o parto. Ao final, a mãe deixa um apelo a quem enfrenta sofrimento parecido: "Lembre da criança. Por mais que não tenha apoio, tente encontrar conforto nela; uma hora passa, diminui e passa."
Conversndo com o psicólogo José Evilazio Moura, ele aponta que quando a depressão pós-parto não é tratada, as consequências podem atingir toda a família, incluindo risco de suicídio, rejeição ao filho e dificuldades no cuidado diário da criança . Ele também mostra a preocupação do profissional com casos mais graves, em que a mãe deixa de amamentar, de acolher ou de cuidar do bebê como seria esperado. O psicólogo também defende que o tratamento deve ir além do uso de medicamentos, combinando psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico e, quando necessário, outros cuidados complementares. Ele ressalta que o apoio terapêutico ajuda a mãe a enfrentar o conflito emocional, retomar o vínculo afetivo com o bebê e compreender a maternidade como parte de sua missão de vida .
Marcia Bezerra de Sousa, mãe de 3 filhos, relata de forma mais profunda as dificuldades e temor que sofreu durante o seu pós-parto. A mãe conta que sua gestação foi tranquila,aparentemente estava tudo bem. As complicações vinheram nas primeiras semanas após o pós-parto, a bebê apresentou perda de apetite e não conseguia urinar. O quadro agravou-se quando, em exame de sangue, a equipe médica constatou alterações sérias. "A médica falou que ela precisava ser internada urgentemente." A bebê foi levada à UTI com apenas 21 dias de vida. "Ela passou 19, quase 22 dias na UTI", conta Marcia, que descreve a rotina de extrair o leite para que as enfermeiras o dessem à filha enquanto ainda estava distante.
Ela também conta que sua experiência na unidade neonatal foi marcada por encontros com outras famílias e cenas traumáticas. "Conheci outras mães com bebês com problemas piores; uma colega perdeu o filho enquanto a gente tinha descido para o almoço de Páscoa", lembra o episódio em que viu a mãe desabar, e o bebê não resistir; isso intensificou o abalo emocional de Márcia:"Ela caiu nos meus braços, desesperada."
Além do peso físico da internação, os protocolos hospitalares também aumentaram o isolamento. Esse isolamento, somado ao medo e à sensação de impotência, foi um gatilho para o mal-estar que viria nas semanas seguintes.
Após a alta, a rotina doméstica evidenciou sinais claros de que algo estava errado. "Poucos dias depois de chegar em casa eu já não queria ter contato com ela. Não queria banhá-la, trocar, amamentar. Quando eu olhava pra ela, me dava raiva. Eu chorava muito, não queria sair do quarto, nem comer, nem tomar banho", relata a mãe.
Assim que a família percebeu a gravidade, procurou ajuda. Márcia passou por psicoterapia e acompanhamento psiquiátrico. Ela conta que o processo de recuperação foi muito difícil,mas que o apoio de sua família foi fundamental para sua recuperação. "Converse, compartilhe", Marcia recomenda para mães que enfrentam depressão pós-parto. "É muito importante você conversar com as pessoas que estão à sua volta e ter um suporte muito bom. Eu escondi isso da minha família por um tempo; só falei quando não estava mais conseguindo."
Vale ressaltar que nenhuma mãe precisa enfrentar a depressão pós-parto em silêncio, pedir ajuda é um ato de coragem e o primeiro passo para perceber que é possível reencontrar a esperança e viver a maternidade de forma mais leve. Afinal, a maternidade não exige a perfeição que muitas vezes é retratada nas redes sociais, buscar apoio é um gesto de força, amor e cuidado consigo mesma e com o seu bebê.


Comentários