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O Autismo na Primeira Infância: A Luta pela Educação e às Dinâmica Familiares

Negar o solo do acolhimento a um indivíduo autista é decretar que o mundo prefere o silêncio da exclusão ao som da diversidade.

Por: Deilane Veloso


Alicia Valini e seus filhos/ Foto: Arquivo Pessoal.


A exclusão ganha rostos, nomes e uma rotina de batalhas silenciosas. É o caso de Alicia Valini, mãe do Ítalo, autista não verbal. Hoje, o jovem tem 19 anos, mas a jornada até aqui foi marcada por cicatrizes e um sofrimento profundo que começou logo nos seus primeiros anos de vida.


A exaustão da dinâmica familiar de Alicia ganha contornos ainda mais complexos: além dos cuidados contínuos com Ítalo, ela divide os seus dias, o seu tempo e o seu orçamento com a criação de outros dois filhos.


Para o desenvolvimento, para Alicia ela foi o início de uma maratona solitária. Sem o suporte pedagógico adequado e sem a intervenção precoce do Estado no passado, o peso do cuidado caiu inteiramente sobre os ombros de uma mãe que precisava se desdobrar, enquanto tentava decifrar como lidar com o diagnóstico e os julgamentos sociais. 


A história desta mãe é o reflexo do abandono das redes que deveriam ser apoio para ela. O cotidiano sempre foi pesado pelas crises de agressividade e, principalmente, pelo isolamento social.


"O mais difícil são as crises e o fato de ele ser agressivo, mas dói ainda mais ver que as pessoas simplesmente não querem conviver e nem aprender a lidar com ele. Eu não tive apoio da escola e nem de ninguém para aprender a conviver com essa realidade, tive que pesquisar e aprender sozinha", a mãe relembra.


Em vez de acolher a agitação, fator  natural da neurodivergência com estratégias pedagógicas adequadas, a instituição optava pelo caminho mais conveniente, transferindo a responsabilidade de volta para os braços da mãe. "A escola dizia para eu não levar ele quando estivesse agitado. A minha resposta era sempre uma pergunta: então é para eu não mandar ele nunca?", questiona Alicia, desnudando a hipocrisia de um sistema que prefere a sala de aula vazia ao dever humano de incluir.


O desamparo que abrigou Alicia não é um caso isolado, mas o reflexo de um apagão pedagógico que afeta milhares de salas de aula. A ciência e a pesquisa acadêmica confirmam que o despreparo das instituições de ensino sabota o desenvolvimento de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) logo na primeira infância.


O amparo legal que deve ser cumprido pela Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/12) assegura textualmente o direito a um acompanhante especializado para o estudante com TEA, incluído no ensino regular. No entanto, a realidade avança em um ritmo que as salas de aula não conseguem acompanhar. De acordo com os dados mais recentes do Censo Escolar, as matrículas de alunos com autismo na educação básica registraram um salto expressivo de 44,4%, aproximando o Brasil da marca de um milhão de estudantes inseridos na rede comum.


Essa explosão de diagnósticos e matrículas sem o devido suporte é pauta de debates e estudos. Quem pesquisa a fundo esse cenário é a professora Kátia Moura, que dedica sua trajetória acadêmica ao tema. Kátia debruça-se sobre o universo do TEA, investigando as barreiras pedagógicas e é autora de diversos artigos científicos sobre o assunto. Ela pontua como sua analise sobre a falta de capacitação continuada do corpo docente e a ausência de mediação escolar adequada fragilizam o processo de aprendizagem, transformando o direito à vaga em mera presença física.


Kátia Moura, pesquisadora/Foto: Deilane Veloso


Em suas análises acadêmicas, a professora evidencia que o despreparo institucional sabota o futuro de milhares de crianças logo na primeira infância, e que esse fato não é apenas responsabilidade da escola, mas de um sistema educacional, que coloca a cobrança a cima do aprendizado e do ensino. Para a pesquisadora, as engrenagens públicas cobram o cumprimento de metas burocráticas e conteúdos padronizados, ignorando como cada aluno é único em seu tempo de desenvolvimento.


Somando-se a essa visão crítica sobre o sistema, a Dra. Gekeyla Nogueira aponta que as consequências desse modelo falho afetam diretamente a saúde e os direitos da criança. A autora de estudos na área da saúde e desenvolvimento infantil, reforça a urgência da intervenção precoce e da adequação prática do ambiente para que o cérebro da criança na primeira infância possa se desenvolver plenamente.


Gekeyla Nogueira, terapeuta ocupacional /Foto: Deilane Veloso


A crítica da médica direciona-se especialmente ao abismo enfrentado nas escolas públicas, que muitas vezes carecem do mínimo suporte estrutural para receber o aluno neurodivergente. Diante desse apagão da rede pública regular, muitas famílias são empurradas para as escolas especializadas. Contudo, a Dra. adverte que a segregação não é a resposta definitiva, o papel dessas instituições deve ser o de complementar e dar suporte técnico, e não substituir o dever de uma sociedade genuinamente inclusiva.


Como solução para aliviar a exaustiva jornada das famílias atípicas, a especialista defende que a transformação depende do equilíbrio entre direitos e deveres do Estado e da sociedade. A intervenção precoce e a adequação das salas de aula não são favores, mas obrigações legais que determinam a qualidade de vida futura desse indivíduo. É preciso fiscalizar, cobrar e estruturar o chão da escola pública para que nenhuma mãe precise aprender a incluir sozinha, no isolamento do seu lar.


No fim das contas, a exaustiva jornada descrita por mães como Alicia e analisada por especialistas da saúde e da educação, não é um problema privado, é um termômetro da nossa própria humanidade. Enquanto o sistema educacional priorizar relatórios frios e burocráticos sobre o desenvolvimento real, continuaremos assistindo ao confinamento de futuros inteiros.


Romper o silêncio da exclusão e garantir o direito fundamental de cada criança na primeira infância é, antes de tudo, uma urgência ética. Só assim, transformando a indignação em políticas públicas reais, faremos com que as salas de aula e os lares brasileiros finalmente deem lugar ao som, à cor e ao direito inegociável da diversidade.


 
 
 

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