top of page

Saúde Mental: A importância dos hobbies e a qualidade de vida

Mais do que um passatempo, a dedicação a atividades prazerosas e a rotina de exercícios físicos se tornam pilares essenciais na busca pelo bem estar emocional.


Por Mayeva Rízia e Jayemille Vitória, para a Universidade Estadual do Piauí


Em um cotidiano cada vez mais acelerado e conectado, a busca pelo equilíbrio emocional tem levado muitos brasileiros a olharem para além das obrigações profissionais. Atividades físicas e hobbies, antes vistos por alguns apenas como momentos de distração ou estética, assumiram um papel central na preservação da saúde mental e na conquista de uma verdadeira qualidade de vida. Especialistas apontam que reservar um tempo na agenda para se movimentar ou se dedicar a uma paixão pessoal ajuda a reduzir os níveis de estresse e ansiedade, funcionando como uma válvula de escape essencial para as pressões do dia a dia.


A saúde mental está relacionada à maneira como as pessoas lidam com emoções, desafios e relações do cotidiano. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), transtornos como ansiedade e depressão estão entre os principais desafios de saúde pública da atualidade. Nesse contexto, os hobbies têm ganhado destaque como atividades realizadas por prazer e interesse pessoal, capazes de proporcionar momentos de relaxamento, expressão emocional e desenvolvimento pessoal.


Para compreender melhor a relação entre os hobbies e a saúde mental, conversamos com a psicóloga Milla Jane que explicou como as atividades realizadas por prazer podem contribuir para o bem-estar emocional e para a qualidade de vida.


Milla Jane, psicóloga. Foto: Arquivo pessoal


Para a especialista, reservar um tempo para atividades que proporcionam satisfação vai muito além do lazer “os hobbies podem ser ferramentas de ativação comportamental”, andando de mãos dadas com a saúde mental. Eles não se limitam apenas como atividades de entretenimento, mas como uma forma de cuidar de si mesmo “estar inserido em algo que proporciona prazer e bem estar subjetivo, pode quebrar ciclos de pensamentos automáticos e doenças mentais”.


Durante a entrevista, a psicóloga também destacou que não existe um hobby ideal para todas as pessoas, “cada sujeito tem as suas preferências e também as suas competências”. O mais importante é que a atividade faça sentido para quem a pratica, respeitando seus interesses, necessidades e individualidades. Além disso, é necessário a adoção de um hobby, uma rotina que estimule o cérebro e traga benefícios na regulação das emoções, “adotar um hobby não está relacionado com o tempo que sobra, indiscutivelmente é uma necessidade reservar um bloco de tempo para realizar um hobby, porque essa prática vai ser preventiva no quesito saúde mental, impedindo adoecimentos”, afirma a especialista.


A psicóloga também chamou atenção para os benefícios que essas atividades podem oferecer às pessoas neurodivergentes, como indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), dislexia e outras condições do neurodesenvolvimento. Segundo ela, quando escolhidos de acordo com os interesses e as necessidades de cada pessoa, os hobbies podem favorecer a expressão de emoções, a organização da rotina, a concentração, a autonomia e a socialização, sempre respeitando as particularidades de cada indivíduo.


Ao final da entrevista, a psicóloga reforçou que cuidar da saúde mental deve ser um compromisso contínuo, “não espere ter tempo para cuidar”. Para ela, cuidar da saúde mental não deve ser visto como um luxo, mas como uma necessidade para uma melhor qualidade de vida. Por isso, reservar momentos para hobbies, lazer e outras práticas que promovam bem-estar é uma maneira de prevenir o esgotamento emocional e cultivar uma vida mais equilibrada. Porém, Milla Jane explica que é importante buscar também um acompanhamento terapêutico individualizado, pois “nem tudo que é terapêutico, é terapia”.


A fim de entender como os hobbies funcionam, corpo e mente se conectam por meio do movimento. Conversamos com especialistas da área do esporte. Segundo eles, os benefícios da atividade física vão muito além da queima de calorias ou do ganho muscular; o exercício atua diretamente na química do cérebro, liberando hormônios que promovem a sensação de felicidade e relaxamento.


Segundo o sensei Francisco Arganjo, o karatê traz muitos benefícios para a saúde mental, ajudando na ansiedade e estresse do dia a dia, proporcionando saúde e bem estar,  “após o treino saio daqui bem leve e aliviado, o estresse vai embora”, explica.


Para quem busca uma atividade mais intensa para descarregar as frustrações e a ansiedade do dia a dia, o boxe surge como uma das opções mais procuradas. De acordo com o professor Jony Bezerra,  “o boxe ajuda no controle da ansiedade e do estresse; muitas pessoas veem o boxe como uma competição, outras como hobby”. 


Um dos esportes mais acessíveis e populares do mundo, a corrida de rua é frequentemente descrita por seus praticantes como uma verdadeira terapia ao ar livre. A Elivânia é nutricionista e pratica corrida de rua há mais ou menos 3 anos, mas ativamente pratica há 6 meses. Para ela, como profissional da saúde, a corrida e as atividades físicas ajudam na prevenção de doenças e na saúde mental. “Os estudos comprovam que as atividades físicas produzem endorfina, que é o hormônio da felicidade, que não vai apenas prevenir doenças, mas vai trazer alívio de ansiedade, depressão e outras doenças mentais”, explica a nutricionista que aconselha a prática da corrida. 


Se os esportes movimentam o corpo, as expressões artísticas abraçam a mente de uma forma única. A música, seja ao aprender a tocar um instrumento ou ao cantar, ativa áreas do cérebro ligadas ao prazer e à memória, reduzindo os níveis de cortisol. O professor de violão Isael Martins fala sobre como o instrumento pode ajudar a aliviar a ansiedade e o estresse e estimular a criatividade. “Com o violão você pode começar a compor. Para que um exercício de criatividade melhor do que esse?; para mim ,tocar violão não é apenas um  hobby, foi um instrumento de mudança, superação e de ultrapassar barreiras. A música é arte e também ciência”.


Aluna do professor Isael Martins. Fonte: Mayeva Rízia


Outro caminho que tem conquistado quem busca qualidade de vida é a pintura.  Amanda Vitória é uma artista plástica em pintura de tela e parede. “ O meu interesse pela pintura surgiu desde pequena, sempre tive interesse por coisas que tinham muita cor”. Para ela “a criatividade não é algo restrito, mas algo que se desenvolve conforme você se insere num mundo diferente,  é um mundo de possibilidades”.


O foco em trabalhos manuais também tem ganhado um destaque surpreendente quando o assunto é saúde mental. Para Fabiana Benevides Rodrigues, “o artesanato é uma terapia ocupacional. O crochê me proporciona calmaria, me faz sair de casa estando em casa”. Ela recomenda que faça crochê ou qualquer outro tipo de artesanato que você se identifique: “faça alguma coisa, não deixe de fazer, pois mente parada não dá certo”.


Fabiana Benevides, artesã. Fonte: Mayeva Rízia


Durante a produção da reportagem, fomos ao Centro de Atenção Psicossocial de Picos (CAPS II), serviço especializado no cuidado à saúde mental. No dia da visita, não foi possível entrevistar profissionais da equipe técnica da instituição. No entanto, foi possível acompanhar parte da rotina dos usuários e observar as atividades desenvolvidas no local. Na ocasião, conversamos com o Profissional de Educação Física, Cristiano Miranda, para ele as atividades físicas, ajudam tanto na saúde física quanto mental dos pacientes, com estímulos de movimentos ativos, o que contribui na resistência e no tratamento. 


Para o profissional esse hobby é necessário para todas as pessoas em geral, “mesmo sendo hobby, está sempre contribuindo para nossa saúde, tanto física quanto mental, não só eles aqui, mas toda a população em geral”. Após a entrevista, a programação do CAPS teve continuidade com outras oficinas, evidenciando a diversidade de atividades oferecidas pela instituição. Entre elas, uma oficina de confecção de pulseiras, que estimulava a criatividade, a concentração, a coordenação motora e a interação entre os usuários.


Fonte: Mayeva Rízia


A experiência permitiu compreender, na prática, como o CAPS desenvolve um atendimento baseado em diferentes estratégias de cuidado. Além do acompanhamento em saúde mental, o serviço promove atividades físicas, oficinas manuais e momentos de convivência, buscando favorecer o desenvolvimento de habilidades, a autonomia, a socialização e o bem-estar dos usuários. 


Ao longo da reportagem, ficou evidente que não existe um único caminho para cuidar da saúde mental e buscar melhor qualidade de vida. Seja por meio do esporte, da música, da pintura, do artesanato ou de outras atividades realizadas por prazer, os hobbies se mostraram necessários e importantes aliados na promoção do bem-estar e da criatividade. Embora não substituam o acompanhamento profissional quando necessário, seja médico ou psicológico, podem contribuir ativamente para a manutenção de uma vida equilibrada, para a prevenção do adoecimento emocional e para a construção de uma rotina mais saudável. Em um cenário marcado pelo aumento dos casos de ansiedade, estresse e outros transtornos mentais, reservar um tempo para aquilo que te faz bem deixa de ser apenas um momento de lazer e prazer, mas passa a representar um ato de cuidado consigo mesmo. 


 
 
 

Comentários


bottom of page